Senhora das Tempestades

19 de abril de 2009

Senhora das tempestades e dos mistérios originais
quando tu chegas a terra treme do lado esquerdo
trazes o terremoto, a assombração, as conjunções fatais e as vozes negras da noite

Senhora do meu espanto e do meu medo.
Senhora das marés vivas e das praias batidas pelo vento
há uma lua do avesso quando chega os crepúsculos carregados de presságios
e o lamento dos que morrem nos naufrágios

Senhora das vozes negras.
Senhora do vento norte com teu manto de sal e espuma
nasce uma estrela cadente de chegares
e há um poema escrito em páginas nenhuma
quando caminhas sobre as águas
Senhora dos sete mares.

Conjugação de fogo e luz
e no entanto eclipse trazes a linha magnética da minha vida
Senhora da minha morte
teu nome escreve-se na areia e é uma palavra que só Deus disse quando tu chegas começa a música
Senhora do vento norte.

Escreverei para ti o poema mais triste
Senhora dos cabelos de alga
onde se escondem as divindades
quando me tocas há um país que não existe
e um anjo pousa-me nos ombros

Senhora das Tempestades.
Senhora do sol do sul com que me cegas
a terra toda treme nos meus músculos
consonância
dissonância

Senhora das vozes negras
coroada de todos os crepúsculos.
Senhora da vida que passa e do sentido trágico do rio das vogais Senhora da litúrgica sibilação das consoantes
com seu absurdo mágico de que não fica senão a breve música.

Senhora do poema e da oculta fórmula da escrita alquimia de sons Senhora do vento norte que trazes a palavra nunca dita
Senhora da minha vida
Senhora da minha morte.
Senhora dos pés de cabra
e dos parágrafos proibidos que te disfarças
de metáfora e de soprar marítimo

Senhora que me dóis em todos os sentidos
como um ritmo só
ritmo como um ritmo.

Batem as sílabas da noite na oclusão das coronárias
Senhora da circulação
que mata e ressuscita
trazes o mar a chuva
as procelárias batem as sílabas da noite
e és tu a voz que dita.

Batem os sons
os signos
os sinais
trazes a festa e a despedida

Senhora dos instantes
fica o sentido trágico do rio das vogais
o mágico passar das consoantes.

Senhora nua deitada sobre o branco com tua rosa dos ventos
e teu cruzeiro do sul
nascem faunos com tridentes no teu flanco

Senhora de branco deitada no azul.
Senhora das águas transbordantes no cais de súbito vazio
Senhora dos navegantes com teu astrolábio e tua errância
teu rosto de sereia à proa de um navio
tudo em ti é partida
tudo em ti é distância.

Senhora do vento
com teu cavalo cor de acaso
tua ternura e teu chicote
sobre a tristeza e a agonia galopas
no meu sangue com teu catéter chamado Pégaso
e vais de vaso em vaso Senhora da arritmia.

Tudo em ti é magia e tensão extrema
Senhora dos teoremas e dos relâmpagos marinhos
batem as sílabas da noite no coração do poema

Senhora das tempestades e dos líquidos caminhos.
Tudo em ti é milagre
Senhora da energia
quando tu chegas a terra treme e dançam as divindades
batem as sílabas da noite
e tudo é uma alquimia ao som do nome que só Deus sabe

Senhora das tempestades

Manuel Alegre

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